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Entre Teoremas e Chocolates: Vamos ter um país de "engenheiros"

sábado, junho 21, 2008

Vamos ter um país de "engenheiros"

No post anterior disse que agora vou "voltar" para o meu país, mas, se me derem a escolher, prefiro ir para o país do Socrates. Ainda não descobri em que país é que o "engenheiro" primeiro-ministro vive actualmente, mas deve ser bem melhor que o nosso. Lá o ensino vai de vento em popa. Os exames revelam que os alunos aprendem com sucesso e que estamos a formar jovens capazes e empreendedores. Só que ele e o ME esquecem-se, ou fingem que se esquecem, que esse sucesso é completamente oco e é uma consequência exclusiva do facilitismo absurdo que invadiu o nosso sistema de ensino. Apesar de algumas associações de professores e algumas pessoas influentes contestarem esse facilitismo, a verdade é que uma grande parte da sociedade não está consciente da gravidade deste problema. Chamo a atenção para a estupidez do exame nacional de Português: agora inclui perguntas de escolha múltipla! A propósito do facilitismo podem ler opiniões com as quais concordo plenamente aqui e aqui. E a palhaçada não é relativa apenas aos exames nacionais. Ao que parece o exame de matemática do 9º ano foi uma prenda que o ME ofereceu aos alunos.  Este facilitismo todo vai ter implicações muito graves no futuro. Aliás, essas implicações já são visíveis. 

Falando do ensino da matemática, cujos contornos conheço melhor, é inadmissível que alunos cheguem a um curso superior em que tenham que frequentar disciplinas da área da matemática sem perceberem o que é uma função. É ridículo. É equivalente a passar da escola primária para o 5º ano sem saber somar números com 2 ou 3 algarismos (e se calhar isto acontece não?). Eu fico parvo quando ouço pessoas, não muito mais velhas do que eu, dizerem que aprenderam noções de álgebra abstracta, matrizes ou cálculo integral no ensino secundário. Tudo coisas que hoje só se aprendem em cursos superiores. Não é suposto as crianças estarem a ficar cada vez mais precoces e inteligentes? 

E para cúmulo, temos o processo de Bolonha a minar os bons currículos de muitos cursos contribuíndo para que o facilitismo se alastre às universidades. Felizmente, as universidades conseguem ter uma certa autonomia e têm conselhos científicos que se estão nas tintas para as teorias pseudo-pedagógicas e para as estatísticas que parecem comandar o ME. Por isso, há universidades resistentes onde os cursos continuam a manter um nível de exigência aceitável. Mas esta situação está já a cavar um fosso enorme entre as exigências do ensino tutelado pelo ME e as universidades. Os alunos que entram nas universidades vão ter cada vez mais dificuldade em acompanhar o ritmo do ensino que aí se pratica. É óbvio, para mim, que o erro está no sistema de ensino do ME e não nas universidades. Mas temo que, face à vontade dos senhores do ME de continuarem a brincar às estatísticas, a curto prazo seja inevitável que as boas universidades públicas comecem a ceder ao facilitismo, sob o perigo de verem muitos alunos a fugirem para onde lhes garantem boas notas (leia-se: privadas). É bom que a sociedade portuguesa desperte a tempo para este problema. 

6 comentários:

Anónimo disse...

«É equivalente a passar da escola primária para o 5º ano sem saber somar números com 2 ou 3 algarismos (e se calhar isto acontece não?)»

Ora bem, isso é um problema perfeitamente contornável: dados dois números naturais, existe uma base relativamente à qual cada um deles escreve-se com um único algarismo. :-)

Carlos Paulo disse...

...Inginheiros. Com I!


digo isto porque uma vez corrigi um exame de ALGA I ou Análise II, de um aluno de engenharia informática que ao preencher o cabeçalho das folhas de exame escreveu "Inginharia Informática".

Quando as pessoas não sabem escrever o nome do curso que estão a tirar, nada mais me choca.

David disse...

Jaime, como sempre uma resposta bastante pertinente! Mas tenho curiosidade de saber que algarismos escolheríamos depois do 9... é uma coisa que me intriga! Tipo, se vivessemos em base 15, vá lá, como escrevíamos o 11, 12 etc ?

Carlos, das duas umas, ou o tipo era istrangeiro ou era o nosso primeiro ministro!

Carlos Paulo disse...

Bem... aí está mais uma falha na tua formação.
Podes designar um símbolo a teu gosto para o 10, outro para o 11.. e assim sucessivamente.
Regra geral o que se faz é passar a utilizar as letras do nosso alfabeto.
Por exemplo em base 15 temos os símbolos 0123456789ABCDE.
Na base 15, "10" representa 15... "100" 255 (=10*10), "1A" 25 (=10+A)... numa das minhas cpcalculadorajs's tenho conversões para bases até 36.

Carlos Paulo disse...

15*15=100+2*10*5+25=225... e não 255.

David disse...

Oi Carlos. Eu sei isso! Era comum em Análise Numérica fazermos alguns cálculos em base 16, usando as letras A, B, C, D, E e F. Mas caso necessitassemos mesmo de mais algarismos recorrentemente provavelmente teríamos que encontrar outros, que não as letras do alfabeto, para não causar confusões. A minha questão tinha mais a ver com isso. Por exemplo, ao que parece a origem da grafia de alguns algarismos tem a ver com o número de ângulos que fazemos ao escrevê-los... (embora segundo a wikipedia isto não seja consensual entre os historiadores). Neste sentido, como escreveríamos 11, 12 etc só com um algarismo? Era mais este o sentido que queria dar à minha questão.