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Entre Teoremas e Chocolates: A Teoria dos Quadrados
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quarta-feira, abril 23, 2008

Vagabundo


Às vezes dou por mim a ter um desejo intenso, quase visceral, de me tornar um vagabundo. Uma vontade de dar um pontapé na vida socialmente tolerada e nas expectativas da sociedade e de correr o mundo sem um destino certo, preocupando-me apenas com o hoje. Um amigo meu costumava dizer com alguma seriedade que queria ir para o sul de França para a apanha do tomate, algo que é um bocado non-sense para quem estava, como eu, a licenciar-se em matemática. Mas entendo bem a vontade dele. Eu também gostava de ir... de ir nem sei para onde, apenas ir! Gostava de ser como uma águia que se lança em voo picado do alto de um penhasco, em vez de ser este pássaro de gaiola cujos pequenos voos não passam de experiências em condições demasiado controladas. Há uma espécie de clamor dentro de mim por uma liberdade que a vida não me pode oferecer. Porque é que a vida não ma pode oferecer? Talvez porque existe uma tremenda desproporção entre a energia e a coragem que tenho. A energia que tenho não cabe em mim, enquanto a coragem, é escassa. Ou talvez porque a vida não pode oferecer essa liberdade a ninguém. Ah, se fosse como nos filmes! Uma mochila às costas, uma troça a todos os medos, um pacto com a loucura e um mergulho de cabeça na vida. Mas este desejo é utópico. Desconfio que a liberdade existe para nos aliciar ao longe, talvez para nos motivar os sonhos, dando-nos esperança de a provarmos um dia. Mas possuir a liberdade total não é algo que seja acessível ao homem comum. Por isso, apesar de a ideia não me consolar, vou descobrindo a cada dia que o único sítio onde posso ser vagabundo é dentro de mim mesmo...

terça-feira, fevereiro 05, 2008

A Teoria dos Quadrados II


Neste segundo post acerca da teoria dos quadrados, quero apenas justificar o porquê de usar os «quadrados» para dar título a este conjunto de ideias cujas linhas gerais podem ler no final do primeiro post desta série. Para ser sincero, os quadrados surgiram quase insconscientemente. A ideia original é a de que nós vivemos confinados a um pequeno espaço. Em rigor, podia ter descrito esse espaço como sendo tridimensional. Um cubo ou um paralelepípedo podiam estar mais de acordo com as leis físicas que regem o nosso mundo. No entanto, esta é uma questão filosófica, não física. E reduzir a dimensão na qual vivemos acaba por representar metaforicamente uma limitação ainda maior. Talvez seja por isso que sempre pensei neste espaço que nos limita como sendo algo a duas dimensões. Apenas tem uma largura e um comprimento. A altura é um infinitésimo, um epsilon imperceptível, como se este espaço que nos limita nos obrigasse a viver vergados até ao limite.

Há ainda outra questão: depois de escolher as duas dimensões, porque escolhi os quadrados e não qualquer outro tipo de figura no plano? Aqui há duas respostas possíveis. Uma delas é que para mim o quadrado é das figuras mais tristes. Um quadrilátero não regular pode ser interessante. Mas quanto ao quadrado, conhecendo qualquer uma das suas medidas ficamos a conhecê-lo perfeitamente. Esta é uma propriedade comum aos outros polígonos regulares, mas mesmo assim julgo que um hexágono regular, por exemplo, tem qualquer coisa de mais misterioso e atraente que o quadrado. A outra resposta possível é que ao escolher o quadrado, estou a estabelecer um paralelismo subtil entre a minha teoria e a ideia de que algumas pessoas são um pouco quadradas. Quando uma pessoa tem uma opinião pouco tolerante ou tem uma visão pouco abrangente da vida, é hábito dizermos que se trata de uma pessoa de mente quadrada. Parece-me que são essas pessoas que mais vivem limitadas a quadrados pequenininhos e que mais se esforçam por limitar os outros a quadradinhos do mesmo tamanho que os seus.

Fica assim justificado o título desta teoria. No próximo post proponho-me escrever acerca do problema da classificação, isto é, o problema de classificarmos as pessoas segundo os estereotipos ou impressões que temos. Tentarei explicar a relação desse problema com a minha teoria.
P.S. Estes posts são baseados na minha filosofia barata e não julgo que tenham qualquer valor. São apenas o produto de uma mente que não regula muito bem e que, às vezes, se entretem a divagar nestes assuntos!

segunda-feira, janeiro 14, 2008

A Teoria dos Quadrados I

Por vezes vagueia pelo meu pensamento a ideia de que gostava muito de estudar filosofia. Isto pode parecer estranho tendo em conta que a filosofia ensinada nos anos do secundário nunca me fascinou. Foi uma disciplina que desprezei um pouco, do mesmo modo que hoje em dia desprezo a sociologia. Agora reconheço que na altura desprezava a filosofia porque não tinha maturidade suficiente para reflectir acerca das perguntas profundas que ela nos propõe.

Para mim, a filosofia não era mais do que um conjunto de teorias sem sentido cujas ideias gerais eu era obrigado a decorar para poder responder às questões dos testes. Analisar a substância e a pertinência (ou não) dessas teorias era algo que não estava ao meu alcance quando tinha 16 ou 17 anos. A unica matéria que me interessava realmente em filosofia era a parte da lógica. Aí sim, sentia-me em «casa». Adorei aprender quantificadores, tabelas de verdade, falácias, etc. Excluíndo o campo da lógica, eu e a filosofia estranhavamo-nos um ao outro, como duas pessoas que apesar de já terem sido apresentadas se olham com desconfiança.

Abro aqui um parêntesis para referir que a minha embirração com a sociologia é de um grau diferente: julgo já ter maturidade para perceber o que a sociologia estuda, o problema é que me parece que a maior parte das teses sociológicas não são mais que um conjunto de banalidades escritas de um modo muito barroco. Aquilo espremido resulta em pouco mais do que algumas constatações que qualquer um de nós faria, desde que pudesse dispor de algum tempo de reflexão e observação e também alguma paciência para tarefas enfadonhas.

Voltando à filosofia, hoje em dia tenho uma relação diferente com ela. Não tenho cabeça para ler textos filosóficos. Dedicando umas sete horas por dia à matemática, não sobram muitos neurónios para ler coisas demasiado exigentes. No entanto, quando pego num livro para ler, seja ele um romance ou uma biografia, gosto que para além da história haja algo mais... Gosto que as personagens tenham alguma «densidade» psicológica e que o autor explore as ideias e as filosofias dessas personagens, filosofias essas que motivam as suas acções e o desenrolar de toda a história. É com esse tipo de livros que tenho criado simpatia pela filosofia. Hoje já não a olho com desconfiança... julgo que ela até me atrai e por isso não me importava de ter simpatizado com ela mais cedo e de ter decidido estudá-la mais a sério!

Nesta série de posts intitulados «A Teoria dos Quadrados» proponho-me divagar um pouco pelas minhas ideias filosóficas. Ainda não escrevi nenhum dos posts que se seguem, nem pensei a sério no seu conteúdo, pelo que os posts desta série podem demorar. Apenas para dar o mote ao que se seguirá, posso começar por justificar o título dos posts. A teoria dos quadrados é a minha ideia de que todos nós a dado momento das nossas vidas, como fruto da nossa educação e das pressões da sociedade, vivemos limitados em pequenos quadrados. Julgo que a ideia de vivermos limitados dentro de pequenos quadrados não é por si só uma ideia redutora da vida. O problema não são os quadrados, o problema é os seus limites serem-nos impostos, em vez de sermos nós a defini-los. Esta ideia já deve ter sido explorada por muitos filósofos. Mas como eu não leio os trabalhos deles e como na memória já pouco me resta da filosofia aprendida no secundário, sinto-me à vontade para explorar divagar independentemente do que já se tenha escrito sobre o assunto, obtendo conclusões baseadas apenas na minha análise da vida.