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Entre Teoremas e Chocolates: Ensaio (muito inacabado) Sobre o Homem dos Chapéus

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Ensaio (muito inacabado) Sobre o Homem dos Chapéus

Sob o seu ruído fortemente metálico, ele arranca! Durante aquele primeiro minuto a aceleração é positiva, a velocidade aumenta e com ela cresce também a chiadeira do costume... Como se todas as chaleiras de Lisboa estivessem ao lume a apitar, chamando pelas donas de casa! Para trás fica Alvalade e todos os seus clientes... A seguir vão apear-se os clientes do Campo Grande... um deles olha agora para o relógio que traz ao pulso, habitualmente com 10 minutos de vantagem sobre o comum mortal, como se fosse possível viver no futuro, como a luz. Suspira! Porquê é que o último percurso nos parece sempre o maior? Porque é que parece que o metropolitano percorre sempre a última etapa da nossa viagem muito mais lentamente? Não vos parece que por vezes os funcionários desses comboios com nome de medida de comprimento, conspiram para lixar o nosso dia? O tipo do relógio decerto concorda com esta ideia...

A aceleração torna-se nula e a velocidade é constante durante um segundo minuto. A senhora de idade desde que se sentou, após a paragem na Alameda onde muitos saem deixando lugares vagos, mostra muita dificuldade em manter-se acordada. Decide agora erguer-se... o corpo já não muito coordenado - às vezes nem parece conexo - balança um pouco e demora a endireitar-se. Enfim, com uma ajuda do cavalheiro que seguía sentado à sua frente, ela levanta-se e espera a melhor altura para se dirigir para a porta. Num canto, meio tapados por um tipo gordo com um boné horroroso enterrado na cabeça, estão os jovens estudantes... a algazarra é, diria, ainda contida pelas saudades das almofadas, essas companheiras há pouco abandonadas nos quartos da capital. Conversam acerca de um qualquer exame de algo relacionado com a biologia ou outra ciência igualmente estranha...

Entretanto uma certa claridade invade o ambiente... mas é uma claridade demasiado ténue, ou melhor, é uma claridade cinzenta! Entramos naquela zona final do percurso, já à superfície, e todos simultaneamente reparamos que o dia parece desolador! Ainda é bastante cedo, mas num dia bonito a esta hora o sol já nos sorriria ao longe! Vamos mais devagar... e a travagem provoca mais uma vez aquela chiadeira! Mas desta vez o barulho do comboio tem acompanhamento: é um som parecido com o de pipocas aos saltos na panela! Quando olhamos melhor lá para fora, para as nuvens escuras que hoje coroam o amanhecer, percebemos que são pipocas de granizo! E, sem que haja tempo sequer para esboçar um gesto de espanto, começa a chover a potes, a cântaros, cães e gatos... Agora sim esboçamos um gesto de mau-humor - já não de espanto - enquanto nos levantamos e dirigimos para as portas. Os estudantes preparam-se para o mau tempo, munidos dos impermeáveis! Se forem mesmo lá das biologias julgo que não terão medo da tempestade. Um bom biólogo, dizem, gosta de conviver de perto com a natureza!

Relâmpago! O tipo do relógio... Trovão! abana a cabeça e roga pragas a todos os meteorologistas... traja fato solene com gravata discreta e sem sobretudo. Penteadinho a rigor! Talvez seja dia de reunião importante! A tempestade ganha terreno e o barulho da chuva já ultrapassou os decibéis do granizo! O metro pára, finalmente! Saímos para a plataforma sem grandes empurrões, porque não há muita pressa para sair desta estação-refugio. A senhora de idade exibe, com algum orgulho, o seu pequeno chapéu de chuva; mas, coitada, não se dá conta de que duas ou três rajadas mais fortes acabarão com o seu orgulho! Mesmo assim, honra seja dada à senhora porque é das poucas que estão prevenidas!

Um pé, dois pés, eis que estamos nas escadas rolantes! Também elas hoje parecem mais pachorrentas, afectadas pelo cinzento do dia! Nas escadas, lado a lado, seguem pares de pessoas que não se conhecem. Mas nestas circunstâncias parece que uma certa cumplicidade as une. Partilham ambas dos mesmos receios. Podem atrasar-se demasiado para os seus afazeres profissionais, sabendo que os patrões podem estar de maus humores e que o castigo pode passar por uma repreensão humilhante à frente dos colegas, um desconto no ordenado ou mesmo um despedimento. Em alternativa podem arriscar a viagem no meio do diluvio, sob a ameaça das constipações, gripes, pneumonias, etc... No lugar deles não arriscaria! Até porque os patrões, num dia destes, também se atrasarão por culpa do trânsito caótico ou da vontade irresistível de ficar debaixo dos cobertores.

Fim das escadas rolantes. Ups... Equilíbrio precisa-se! A senhora de idade é ajudada por uma moça africana e lá consegue sair das escadas sã e salva. Mas ainda não chegou ao fim da sua aventura metropolitana diária: falta passar pelas portas de acesso. Essas temíveis barreiras que teimam irritar qualquer utente! Numa altura oportuna julgo que seria homem para escrever um ensaio contra os acessos ao metro! Mas como este é um ensaio acerca do homem dos chapéus e ele ainda nem sequer foi apresentado, o melhor é deixar tal assunto de parte. A máquina não reconhece à primeira o chip do passe da senhora e solta um daqueles alarmes muito irritantes! A fazer lembrar o som dos telemóveis Siemens antigos quando estavam a ficar sem bateria.

A pouco e pouco, à medida que os chips são reconhecidos, os apeados vão saindo para o "outro lado". No Campo Grande, a estação é mais do que um simples ponto de passagem das pessoas, porque tem algumas lojas no piso térreo e tem uma vida própria apreciável! Ali do lado esquerdo há uma papelaria e, por ser sexta feira, há quem se dirija para lá por causa do jackpot no euro-milhões. Mas a maior parte daqueles que saíram do metro vindo da linha verde estão agora a descer as escadas para o piso térreo.

Às portas da rua o panorama é assustador! Continua a cair uma carga de água daquelas que nos encharcam até aos ossos! Duas dezenas de pessoas estão por ali a olhar para a estrada, que agora faz lembrar uma piscina, impotentes, sem saber como enfrentar a situação! Só chove há uns 30 segundos mas, se não o soubesse, diria que chovera a madrugada inteira! Entretanto junta-se mais uma dezena de pessoas, vindas da linha amarela. Um ou dois arriscam a saída, talvez o destino fique ali a dois passos


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